“o Filho do homem é senhor também do sábado”. (Mc 2,28).

Do Encontro com a Palavra, Pe. Lourival S. da Cruz.
IX Domingo do Tempo Comum, Ano B
Dt 5,12-15; 2Cor 4,6-11; Mc 2,23-3,6

 

Sabemos que Jesus não veio para abolir a lei. Ele mesmo no diz: “Não julgueis que vim abolir a lei ou os profetas. Não vim para os abolir, mas sim para levá-los à perfeição.” (Mt. 5,17).

O caminho que Deus propõe para a humanidade é sempre de libertação, conduz ao amor em seu sentido pleno, a solidariedade, o cuidado com o outro, a significação e a importância da vida. Se nos distanciarmos disso perderemos o sentido da Lei, os mandamentos, do Senhor e viveremos entre preceitos e normas que são até capazes de assegurar o cumprimento e a suposta harmonia entre os homens e mulheres, mas se perdem na frieza das letras. Pois, a Lei do Senhor Deus, foi escrita em cada um de nós, como nos recorda o Apóstolo Paulo, “… não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, isto é, em vossos corações. Tal é a convicção que temos em Deus por Cristo. Não que sejamos capazes por nós mesmos de ter algum pensamento, como de nós mesmos. Nossa capacidade vem de Deus. Ele é que nos fez aptos para ser ministros da Nova Aliança, não a da letra, e sim a do Espírito. Porque a letra mata, mas o Espírito vivifica.” (II Cor 3, 3-6).

É dessa forma que compreenderemos melhor as leituras que nos são propostas, neste domingo, que tem como intenção mostrar que o sentido da Lei é o bem do ser humano.

Na primeira leitura, fica claro o mandamento referente ao sábado, bem como sua centralidade e identificação judaica. O descanso no sábado é, também, memória e sinal de libertação (Dt 5,15), participação no repouso de Deus, dedicação e santificação ao Senhor (v.12-14). É mais do que uma prescrição de leis, trata-se do diálogo entre Deus e o seu povo. No entanto, o tempo passou e levou consigo o real sentido da Lei, tornando-a num conjunto de proibições. O que outrora era sinal de libertação, torna-se agora escravidão, perdida em culto externo, formal e conveniente.

Por isso, Jesus chama atenção acerca da perda da hierarquia da lei e a falta de referência segura da prática das virtudes. Esta perda é capaz de colocar o sábado acima do homem, dando-lhes um sentido equivocado no seu modo de proceder. Afirma Jesus no Evangelho: “O sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” (Mc 2,27). Recorda que deve ser aproveitado para o bem, o cultivo espiritual em sua relação com Deus, sem esquecer a relação e o comprometimento com a dignidade da vida. Nos falará, ainda, “Há alguém entre vós que, tendo uma única ovelha e se esta cair num poço no dia de sábado, não a irá procurar e retirar? Não vale o homem muito mais que uma ovelha? É permitido, pois, fazer o bem no dia de sábado.” (Mt 12,11-12).

Jesus não hesita em fazer o bem e insiste, “o Filho do homem é senhor também do sábado”. (Mc 2,28). Proclama sua autoridade como Filho, dada pelo Pai e liberta o ser humano da atitude medíocre e nos ensina, de acordo, com seu proceder que não é somente lícito fazer o bem no sábado, mas que as obras de caridade fazem parte da santificação do dia do Senhor.

Para nós cristãos esse dia é o domingo. É bem verdade que os cristãos, sobretudo, os provenientes do judaísmo, observavam, no início, o sábado, embora já se reunissem desde as primeiras comunidades para a “fração do pão”, como encontramos na narrativa dos Atos dos Apóstolos, “No primeiro dia da semana, estando nós reunidos para a fração do pão” (At 20, 7). “O primeiro dia da semana judaica, que se tornou o dia de reunião dos cristãos (cf. Mt 28,1+; 1Cor 16,2), o “dia do Senhor” (“domingo”, em Ap 1,10). A reunião dominical realizava-se no começo desse dia, mas contado à maneira judaica, portanto no sábado à noite.[1]”. Sendo assim, aos poucos, o sábado será substituído pelo domingo, o dia do Senhor.

Por tradição apostólica, tem a sua origem no próprio dia da Ressurreição de Cristo. Neste dia devem os fiéis reunir-se para que, ouvindo a palavra de Deus e participando na Eucaristia, celebrem a memória da Paixão, Ressurreição e glória do Senhor Jesus e dêem graças a Deus que os «fez renascer para uma esperança viva pela Ressurreição de Jesus Cristo de entre os mortos» (1 Ped1, 3). Por isso, o domingo é o principal dia de festa que se deve propor e inculcar na piedade dos fiéis, de modo que seja também o dia da alegria e do descanso.[2]

[1] Cf. Nota de rodapé – Bíblia de Jerusalém, pg. 1940.
[2] Cf. SC 106.

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