Fazei o nosso coração arder quando falardes…

Do Encontro com a Palavra, Pe. Lourival Silva da Cruz, n.04, 2017. Homilia do III Domingo de Páscoa – Ano A.

(At 2,14.22-33; Sl 15; 1Pd 1,17-21; Lc 24,13-35)

“ vós me ensinais vosso caminho para a vida; junto de vos felicidade sem limites”

   Senhor Jesus, revelai-nos o sentido da Escritura; fazei o nosso coração arder quando falardes.

Ao fazer memória do que vivemos desde o domingo da ressurreição do Senhor, até o presente momento, observamos como Jesus vai se manifestando no meio dos apóstolos, fortalecendo-os no caminho do discipulado.

Após sua ressurreição se manifesta na Assembleia dominical, destacando a relevância de permanecer unidos, fortalecidos pelos vínculos da Unidade, que é o próprio Cristo. Neste domingo, somos convidados a viver sua manifestação de amor por nós, na Eucaristia. É ao partir o pão que eles o reconheceram. Como discípulos aprendamos do Mestre que é na partilha do pão, atentos as necessidades uns dos outros, solidários aos que sofrem e feridos pela desigualdade, que reconhecemos o Senhor.

Para isso tomemos como fonte segura do nosso itinerário a Palavra de Deus. Nesta liturgia percebemos, como de fato, nossa vida encontra, novo sentido quando nos deixamos guiar pelo Espírito Santo. “Pedro de pé, junto com os onze apóstolos, levantou a voz e falou a multidão”.

Este mesmo homem, capaz de negar o mestre por três vezes é capaz de testemunhar com sua existência que Deus o ressuscitou dos mortos, pois não era possível que a morte o dominasse. Dessa forma, conseguimos compreender que na busca pelo reconhecimento do Senhor, precisamos percorrer o caminho que nos é próprio à nossa condição de existir, a saber: a incerteza, as angústias, os medos, as tristezas presentes, pois são nessas realidades que se manifestam a glória do ressuscitado.

É pelo dom do espírito que nos tornamos testemunhas do Evangelho de Jesus. É ele quem nos possibilita falar de Deus do modo certo, o que significa aprender a olhar para cruz não como fracasso, mas como obra de Deus, olhar para as inúmeras incompreensões acerca dos sofrimentos e não perder a esperança. É este olhar que Jesus restitui aos discípulos no caminho de Emaús, e a cada um de nós, sem perder de vista o que nos diz São Pedro em sua Primeira carta: “sabeis que fostes resgatados da vida fútil herdada de vossos pais, não por meio de coisas perecíveis, como a prata ou o ouro, mas pelo precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro sem mancha nem defeito”. É, portanto, Deus quem orienta e conduz até Si todos nós, levando-nos a ter fé e esperança n’Ele. (Cf. 1Pd. 1, 21). Com isso o apóstolo Pedro resgata o Temor a Deus que na tradução, no texto de hoje, aparece como respeito, uma vez que durante o tempo de nossa migração neste mundo somos capazes de invocar como Pai aquele que sem discriminação julga a cada um de acordo com as suas obras.

É nesta postura vigilante que devemos prosseguir. Os exercícios quaresmais nos ajudaram de forma mais objetiva direcionar nossos corações para o Senhor, por meio das práticas penitências, da oração e da caridade. Agora, os desafios são outros e exigirá uma vida disciplinada e inclinada para as coisas do alto. Já não nos perdemos nos sentidos, nossa alma é direcionada, introduzida não mais no caminho de iniciantes, mas como aqueles a quem se deu a conhecer os mistérios do Senhor: “nisso os olhos dos discípulos se abriram e eles reconheceram Jesus. Jesus, porém, desapareceu da frente deles. Então um disse ao outro: “não estava ardendo o nosso coração quando ele nos falava pelo caminho, e nos explicavas as Escrituras? ”. Jesus se faz presente em nosso caminho, nossa vida e em meio as dificuldades nos revela seu mistério de amor e sua glória. O Evangelho, conhecido por nós, dos discípulos de Emaús, nos instrui acerca do modo como podemos fazer a experiência e encontrar o Ressuscitado, cuja presença foge à forma racional de compreender as coisas. Os olhos e a inteligência por si só não nos mostram o Senhor. É, antes de tudo, sua Graça que nos garante extraordinária experiência.

É importante então compreender que os olhos não vêem o ressuscitado pelo fato de ainda estarem presos aos fatos do passado e não conseguem enxergar a nova Luz que é Jesus. O coração ainda não sabe arder. Não descobriram a sabedoria da Cruz, de um Deus que se ofereceu aos homens, sofreu e morreu, de modo que compreendêssemos todo seu amor por cada um de nós.

Em muitas situações não enxergamos o Senhor por causa do aprisionamento do nosso coração ao passado, muitas vezes traumatizantes de nossa história. “Será que o Cristo não devia sofrer tudo isso para entrar na sua glória?”. Será que não é preciso que passemos por alguns sofrimentos, já presentes em nossa vida, a fim de Cristo ser glorificado? Lembremos o que diz o apóstolo Paulo: Estou pregado à cruz de Cristo. Eu vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim. A minha vida presente, na carne, eu a vivo na fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou por mim. (cf. Gl 2,19-20).

Peçamos a Graça, nesta Santa Eucaristia, que na fração do pão que nos é entregue, como   verdadeira comida, num modo real e imediato, gesto que abrange e exprime o sentido da vida de Jesus e inteiramente marcada pelo dom total de si mesmo, possamos ser libertos da cegueira e da dureza de coração e enxergar n’Ele, aquele que vive e partilha a caminhada conosco.

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