Precisamos testemunhar o que de fato aprendemos a viver: a alegria do Ressuscitado.

Do Encontro com a Palavra, Pe. Lourival S. da Cruz. 3º Domingo da Páscoa, Ano B.
(
At 3,13-15.17-19; 1Jo 2,1-5a; Lc 24, 35-48)

 

3º Domingo da Páscoa. Na medida em que avançamos com os relatos dos Atos dos Apóstolos, cresce em nós a esperança de viver já aqui, a alegria que na eternidade será plena. A presença do Senhor por meio de sua Palavra, na Eucaristia e na comunhão fraterna faz arder nosso coração ao passo que nos alimenta e nos encoraja para anunciar Jesus.

É o que ocorre no discurso de Pedro. Depois da cura do coxo, faz um convite ao arrependimento, afirmando a unidade da história da Salvação, que tem na ressurreição de Jesus o seu cumprimento definitivo. O convite, ou a condição para salvação, já nos é conhecida: “Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos, para que vossos pecados sejam perdoados”. (At, 3,19).

Na dramaticidade da vida, nos deparamos com nossos insucessos, próprios dos que se põem a trilhar o caminho do Senhor e erram, cometem pecados, pois agem por ignorância de sua condição humana, por falta de um conhecimento claro de seus limites, suas faltas irrefletidas e vividas como uma sucessão de erros que trazem para si e para os outros uma compreensão equivocada do seu próprio ser. Por isso, são João na sua primeira carta não insistirá somente na necessidade de reconhecer nossa realidade de pecadores, mas em nos tranquilizar de que “temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo”.

A condição indispensável para acolher o dom da salvação é o reconhecimento dos nossos pecados. Ao confessar com verdade o pecado, o ser humano experimenta, ao mesmo tempo a misericórdia de Deus, porque Jesus, o Filho, é a vítima de expiação pelos nossos pecados, e não só pelos nossos, mas também pelos pecados do mundo inteiro. (1Jo 2,2). O homem e a mulher perdoados desejam não voltar a pecar porque conheceu Deus no perdão. Passam a viver não sob o peso e preço do pecado, que é a morte, mas na alegria do Cristo ressuscitado.

Dessa forma, chegamos no Evangelho de hoje. Jesus acalma os seus, dizendo: “A paz esteja convosco”. Comunica a paz aos amedrontados e assustados pela sua aparição, certamente, entre eles, traziam consigo o peso por se sentirem culpados e cobrados, por terem, supostamente abandonado o Mestre, durante a paixão e morte de Cruz. Agora, Jesus, morto para destruir o pecado e reconciliar o homem com Deus, oferece a paz como certificação de seu perdão e de seu Amor. Apresenta a verdade dos fatos: “vede minhas mãos e meus pés: sou eu mesmo! Tocai em mim e vede! Um fantasma não tem carne, nem osso, como estais vendo que eu tenho. E dizendo isso, Jesus mostrou-lhes as mãos e o pés” (Lc 24, 39-40).

Nos relatos das aparições de Jesus ressuscitado o enxergamos sempre flexível, próximo a realidade de quem o ver e escuta. Não os trata do mesmo modo, mas por meios e caminhos diferentes conduz todos à certeza da sua ressurreição. Olhem! Creiam! Sou eu, o mesmo Jesus que esteve convosco. Suas chagas desconstroem a imagem de um Deus triunfalista, sua identificação com o crucificado torna válida a fé e a esperança. Quem não compreende a Paixão de Nosso Senhor, não compreenderá a sua Ressurreição. Quem não compreende e não enxerga os sofrimentos presentes na vida, dificilmente viverá a alegria da ressurreição, “é a ressurreição que explica e justifica a Paixão. Para quem crê na Ressurreição de Cristo, na qual está encerrada e preanunciada a ressurreição dos fiéis, já não é a cruz ocasião de desorientação ou escândalo, nem enquanto paixão de Cristo, nem enquanto sofrimento que entra na própria vida pessoal”.

Jesus retoma seus ensinamentos, fazendo que compreendam tudo o que haviam vivido nos últimos dias. Revela que é Ele mesmo a chave interpretativa de todas as Escrituras, isso quer dizer que n’Ele se cumpre tudo o que havia sido predito pela Lei e pelos Profetas. Nos convida a sermos suas testemunhas, anunciadores do seu mistério de amor, solícitos para com as necessidades uns dos outros, sobretudo para a urgente necessidade de esperança, sentido e amor. Não precisamos de mais palavras, o que precisamos, é de mais testemunho, “Tenho para mim que os sofrimentos da presente vida não têm proporção alguma com a glória futura que nos deve ser manifestada. Por isso, a criação aguarda ansiosamente a manifestação dos filhos de Deus. (Rm 8,18-19). Precisamos testemunhar o que de fato aprendemos a viver, pela experiência que fazemos com o Cristo em nossa vida.

 

 

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